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Preciso e talentoso, Ricardo Terto nada de braçada em 1o romance

Preciso e talentoso, Ricardo Terto nada de braçada em 1o romance

Ricardo Terto é um equilibrista. Em "A Fortaleza dos Homens-Borracha", seu primeiro romance, se equilibra com graça entre a discussão de temas sociais profundos e a fluidez de um gibi da Era de Prata —o período, entre os anos 1950 e o início dos 1970, em que os quadrinhos receberam forte influência da ficção científica e seus personagens passaram de arquétipos invencíveis a versões mais complexas e humanizadas de si mesmas. A gravidade daquilo que é discutido no romance jamais lhe subtrai a elegância, tampouco o ritmo. Fosse alguém menos habilidoso, ou com a mão mais pesada, seria fácil incorrer nos três pecados mais ou menos recorrentes da literatura brasileira contemporânea: a solenidade afetada, o moralismo de ocasião e o didatismo. "A Fortaleza dos Homens-Borracha" é construído como um mosaico de vinhetas, ou esquetes breves, sobre personagens da periferia de São Paulo, cujas vidas se encontram na interseção de episódios de trauma e violência. O fio condutor da história é uma reflexão sobre memória e luto, com tons farsescos de um filme de aventura antigo e aconchegante da Sessão da Tarde. Há um texto de Antonio Candido em que ele recupera uma classificação interessante feita pelo crítico Almeida Salles. Para Salles, os escritores brasileiros se dividem em dois grupos majoritários: os "estratégicos" e os "táticos". O primeiro é a turma que confia "menos na força impulsiva do talento que no domínio vagaroso, mas seguro, dos recursos da sua arte". Já o segundo é habituado a construir "no primeiro movimento da inspiração". Pensando nessa tipologia, dá pra cravar que Terto pertence ao primeiro grupo. Em "A Fortaleza dos Homens-Borracha" não há uma vírgula a mais, uma palavra que sobra, uma sílaba fora de lugar. É uma escrita precisa, sem gordura. Talvez não seja evidente numa primeira leitura, mas o humor é um negócio importante, talvez fundamental, ao longo do romance. O ritmo da construção das cenas, ...