Estive recentemente em junho em Nova York e visitei a exposição “Frida and Diego: The Last Dream”, em cartaz no MoMA. A exposição é linda, fica em cartaz até setembro, e marca uma colaboração inédita entre o MoMA e o Metropolitan Opera — na qual este último apresentou uma ópera de mesmo nome, com direção cênica da extraordinária coreógrafa brasileira, Deborah Colker. Ela imagina um reencontro póstumo entre o casal mexicano no Día de los Muertos. Um amor atribulado em vida que se realiza em morte. Num mundo onde falta amor, não consigo imaginar algo mais poético e poderoso. Imperdível em Nova York. Apesar de admirar a obra de Frida Kahlo, sempre me perguntei, inconformada, o porquê da discrepância de valor entre a produção dela e a de Tarsila do Amaral, outra artista que admiro muito. Ao visitar esta mostra, essa pergunta me veio novamente à mente e penso que existem explicações que ajudam a entender como uma obra pode ser valorizada através de estratégias de mercado e até mesmo de políticas culturais. Em novembro de 2025, um autorretrato de Frida Kahlo chamado “El sueño (La cama)” (o mesmo que inspira a mostra citada acima) foi arrematado na Sotheby's, em Nova York, por cerca de US$ 54,7 milhões, o maior valor já pago em leilão por uma obra feita por uma mulher, superando o recorde que a própria Kahlo já detinha desde 2021, quando “Diego y yo” saiu por US$ 34,9 milhões. Nenhuma obra brasileira jamais chegou perto disso. O recorde nacional pertence justamente a Tarsila do Amaral: “A caipirinha” foi vendida em 2020 por R$ 57,5 milhões. Na cotação da época, algo perto de US$ 11 milhões. Mesmo o maior valor já pago por uma Tarsila em qualquer mercado — e até os US$ 20 milhões desembolsados pelo MoMA para levar "A Lua" para o acervo do museu —, fica muito abaixo do patamar mexicano. Tarsila do Amaral Getty Images A pergunta que fica é incômoda: por que duas artistas de estatura histórica comparável, centrais na construção de uma identidade nacional moderna, pioneiras num meio dominado por homens, e, por fim, com obras estudadas em qualquer curso sério de história da arte latino-americana têm destinos diferentes no mercado? Uma parte da resposta está fora da arte. Frida Kahlo é hoje também um fenômeno da cultura pop global: filme hollywoodiano estrelado por Salma Hayek em 2002, casa-museu transformada em destino turístico obrigatório, imagem replicada em produtos de todo tipo décadas antes de qualquer leilão recorde e, mais recentemente, a ópera do Met a que já me referi. Isso constrói uma demanda muito além do círculo de colecionadores tradicionais. Compradores bilionários fora do universo da arte entram na disputa porque reconhecem o nome, não porque estudaram o movimento surrealista mexicano — rótulo que, aliás, a própria Kahlo sempre rejeitou. Tarsila nunca teve algo remotamente equivalente: é reverenciada dentro do Brasil e reconhecida por especialistas internacionais, mas não atravessou para a cultura de massa fora daqui. Há também uma questão de estoque e circulação. O espólio de Tarsila é estimado em cerca de 2.200 obras, das quais menos de 240 seriam óleos sobre tela, categoria que realmente move recordes em leilão. E a maior parte já está em museus e coleções institucionais, fora de circulação. Isso deveria, em tese, valorizar ainda mais as raras peças disponíveis. Mas o mercado de arte não funciona só por escassez: funciona por profundidade de demanda internacional competindo pela mesma peça, e é aí que o Brasil também perde para o México. Tarsila do Amaral, O touro -1960 Foto: Divulgação / MAM Há ainda a questão de quem escreve a história da arte moderna. Os grandes museus enciclopédicos do Hemisfério Norte, como MoMA, Tate e Centre Pompidou, construíram suas narrativas de modernismo latino-americano com o México e, em menor medida, com a Argentina, ocupando lugar central bem antes do Brasil. Diego Rivera e os muralistas mexicanos tiveram exposições retrospectivas em Nova York nos anos 1930. O modernismo brasileiro, por outro lado, levou décadas para ganhar espaço equivalente fora do eixo Rio-São Paulo. Tarsila ganhou a primeira exposição dedicada exclusivamente a sua obra nos Estados Unidos em 2018, com “Inventing Modern Art in Brazil”, no MoMA. Mais recentemente, entre 2024 e 2025, a individual “Painting Modern Brazil” viajou entre o Guggenheim Bilbao, na Espanha, e o Musée du Luxembourg, em Paris. Foi uma das mais abrangentes retrospectivas já dedicadas à artista na Europa. Essa desigualdade de canonização inicial tem um efeito cumulativo: cada exposição internacional gera mais estudo acadêmico, mais interesse de colecionador, mais liquidez e mais recordes de preço, um ciclo que se retroalimenta. A obra 'Abaporu', de Tarsila do Amaral, no museu Malba, registrada em 2023 Arquivo pessoal Mas isso não significa que a distância seja definitiva. Nos últimos anos, casas de leilão internacionais como Christie's e Sotheby's passaram a dedicar leilões específicos à arte latino-americana com presença crescente de nomes brasileiros, e instituições reconhecidas internacionalmente, como o Masp, têm investido em reposicionar artistas como Tarsila do Amaral e o modernismo nacional dentro de narrativas globais. Em 2019, a mostra "Tarsila Popular" bateu recordes de visitação com mais de 400 mil visitantes. É um exemplo do apetite doméstico que ainda não se traduziu totalmente em apetite internacional. Retrato de Frida Kahlo no pátio da Casa Azul. Institution Archives of American Art, Florence Arquin Papers, 1923-1985. Cortesia: Editora Taschen A comparação entre Tarsila e Frida não é, no fundo, sobre quem pintou melhor. É sobre como se constrói valor simbólico e financeiro ao longo de um século e sobre o quanto ainda falta para que a arte brasileira ocupe, no imaginário e no bolso do colecionador global, o lugar que sua qualidade já justifica com folga. É também um convite a pensar, com mais ambição, as políticas públicas de cultura em nosso país — e o quanto elas podem pesar no nosso posicionamento cultural no mundo. Isso é assunto para outro artigo, quem sabe! Revistas Newsletter Canal da Vogue Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!
Por que uma Frida Kahlo vale mais que uma Tarsila do Amaral?