<_cdata><p>Alta incidência pode estar associada à contaminação prolongada causada pelo rompimento da Barragem do Fundão em 2015. Estudo sublinha necessidade de monitoramento contínuo na região</p> <media:content url="https://nexo-uploads-beta.s3.amazonaws.com/wp-content/uploads/images/2026/08/IMG_2022_123906-1025x577-1.webp" type="image/webp" medium="image"> <media:title> Estudo analisou 38 indivíduos da espécie Stellifer naso </media:title> <media:credit> Rafael Lima Oliveira / Acervo Pesquisadores </media:credit> </media:content> <p>No litoral do Espírito Santo, cientistas verificaram a maior taxa de anomalias já documentadas em peixes costeiros de todo o Brasil, de acordo com a literatura científica disponível. No local, 60,5% dos peixes da espécie Stellifer naso têm deformidades nos otólitos sagitais, estruturas calcificadas localizadas na cabeça, assemelhadas a pequenas “pedrinhas”, que servem para a orientação no espaço e percepção sonora.</p> <p>Publicado na revista Ocean and Coastal Research, o estudo analisou os otólitos de 38 espécimes que foram coletados na foz do Rio São Mateus, nas proximidades do município capixaba de Conceição da Barra, em maio de 2022. A equipe encontrou anomalias em duas regiões específicas dos otólitos – a porção ventral e a margem caudal do sulco acústico –, sinalizando um padrão específico nas alterações morfológicas.</p> <p>Os resultados foram comparados aos percentuais relatados em estudos anteriores com outras espécies – para se ter uma ideia, a maior taxa de deformações em otólitos observada até então havia sido de 27,11%, referente ao bagre Cathorops spixii.</p> <p>A alta incidência de malformações pode estar relacionada à contaminação ambiental severa e prolongada causada pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), no ano de 2015. O desastre liberou toneladas de rejeitos de mineração de ferro no Rio Doce, que acabaram se depositando no sedimento oceânico. Peixes como o Stellifer naso, que vivem no fundo do mar em águas rasas, ficam expostos aos poluentes presentes na lama e na areia.</p> <p>“Comparando com outros trabalhos similares no Brasil e também expandindo para outras regiões, o nosso trabalho teve um resultado bem acima da média em quantidade de peixes com anomalias, o que possivelmente está relacionado às marcas do desastre”, destaca o pesquisador Jonas Andrade-Santos, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que assina o artigo com Marcelo R. Britto, da mesma instituição, e com Rafael Menezes, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).</p> <p>Os autores observam que a persistência desse cenário evidencia a lentidão na recuperação do ecossistema costeiro do Espírito Santo. Os peixes utilizados na pesquisa foram coletados quase sete anos após o rompimento da barragem, e ainda assim apresentaram altas taxas de malformações.</p> <p>A equipe pondera que a ausência de amostras de peixes coletadas na região antes de 2015 impossibilitou uma comparação exata e irrefutável entre os cenários pré e pós-tragédia. Para Andrade, isso mostra a urgência de se financiar coleções biológicas regionais de referência em universidades locais, para que futuros estudos possam avaliar efeitos precisos da contaminação ambiental sobre os organismos.</p> <p>Agora, os cientistas planejam compreender a fundo a gravidade da contaminação a partir de análises químicas para identificar a composição dos minerais retidos nos otólitos. Eles pretendem expandir o escopo do estudo para observar anomalias externas, como deformações nas nadadeiras dos peixes.</p> <p>A equipe também buscará atuar em parceria com instituições locais focadas na recuperação do ecossistema e planeja repetir a pesquisa na região daqui a cinco ou dez anos. O objetivo a longo prazo é monitorar a área de forma contínua para avaliar se o ambiente costeiro impactado apresentará algum sinal positivo de recuperação com o passar do tempo. “Mais do que um diagnóstico de contaminação, o estudo reforça a necessidade de diálogo entre a ciência e a sociedade para garantir a segurança do ecossistema e das populações locais”, conclui Jonas Andrade.</p>
O pico de anomalias em peixes no ES após o desastre de Mariana