Um fotógrafo francês caminha pelas ruínas de Gaza à procura de uma cena para fotografar. Seus editores em Paris esperam imagens de crianças aos prantos ou de soldados armados. Ele decide, porém, tirar uma foto de um homem idoso cercado de livros, diante de uma livraria.O senhor aceita ser fotografado, mas com uma condição: o estrangeiro precisa ouvir, primeiro, a história de sua vida. Não quer ser mais um retrato anônimo, descartado em seguida. Começa aí o enredo do romance "O Livreiro de Gaza", de Rachid Benzine, lançado no Brasil pela Intrínseca com tradução de Sofia Soter.Nascido no Marrocos, Benzine é um renomado cientista político e estudioso do islã. Neste livro, escapa da academia e recorre à literatura para alertar o mundo sobre a crise humanitária em Gaza. É um romance curto, com pouco mais de cem páginas, do tipo que se lê numa sentada.A cena de abertura tem uma mensagem clara. Benzine sugere, por meio da história do livreiro, que é preciso dar rosto às vítimas das catástrofes. Os mortos de Gaza, deixa claro, são mais do que números —e mais do que as fotos que exploram suas tragédias nas capas de jornais e revistas.O texto impressiona pelo lirismo. Ao descrever a faixa de Gaza, por exemplo, Benzine diz: "as vísceras do asfalto se espalham pela calçada" e "as casas são meras caixas torácicas". Mais adiante, fala do território palestino como se fosse uma "joia quebrada, salpicada de miséria e luz".A conversa entre fotógrafo e livreiro se desenrola em francês, língua que o palestino aprendeu pela leitura. É um recurso inteligente para Benzine resolver o dilema da incomunicabilidade. Isso também expõe a falta de conhecimento do jornalista, enviado a Gaza sem conhecer a língua local. É quase por sorte que tem a oportunidade de ouvir a história do livreiro.O senhor palestino conta que se chama Nabil. Nasceu em Haifa e foi expulso em 1948, com a criação de Israel —que, além de sua família, expulsou 700 mil o...
'O Livreiro de Gaza' dá um rosto lírico a vítimas de catástrofe palestina