Os países devem priorizar medidas de apoio direcionadas às famílias mais vulneráveis, em vez de subsídios amplos para conter os preços durante crises de custo de vida, avalia o Fundo Monetário Internacional (FMI). No novo capítulo do World Economic Outlook (WEO), o Fundo alerta para os efeitos duradouros das crises de custo de vida sobre a inflação, o poder de compra e a desigualdade e orienta governos sobre como responder a esses choques. Leia também: Diretora-gerente do FMI alerta que riscos de dívida e inflação elevadas persistem A revisão de programas que o FMI precisa Intitulado “Navegando em um mundo sujeito a choques: lições das crises de custo de vida”, o capítulo 2 do WEO mostra que transferências temporárias e direcionadas são a forma mais eficiente de proteger as famílias de baixa renda, além de preservarem mais espaço fiscal para os governos. Já medidas amplas para conter os preços podem ter um custo significativamente maior para os cofres públicos sem necessariamente beneficiar quem mais precisa. Segundo evidências de um novo modelo analítico, oferecer a mesma proteção às famílias de baixa renda por meio de subsídios ao consumidor pode exigir de três a seis vezes mais recursos fiscais do que transferências direcionadas. No caso de subsídios aos produtores, o custo pode ser de 14 a 22 vezes maior. "Isso ocorre porque grande parte do apoio não chega às pessoas que mais precisam, como mostrou a crise energética na Europa em 2022 e 2023", afirmam os economistas que conduziram a pesquisa, em análise publicada no blog do Fundo. "Para cada euro gasto para conter os preços da eletricidade, do gás natural e da gasolina, menos de 20 centavos chegaram aos 20% mais pobres das famílias." A recomendação vem em um momento em que o custo de itens essenciais do dia a dia, de alimentos e eletricidade a combustíveis, aumentou acentuadamente nos últimos cinco anos, após as perturbações nos mercados globais de commodities desde o início da invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, até o conflito no Oriente Médio neste ano. Segundo o FMI, os efeitos dessas crises vão muito além do período inicial de alta. "Durante essas crises de custo de vida, os preços de itens básicos, como alimentos e energia, sobem mais rapidamente que os demais preços e os salários. Como é difícil para as pessoas reduzir o consumo desses itens ou substituí-los completamente, mesmo aumentos temporários de seus preços podem impor dificuldades significativas", diz o blog. Nesse cenário, o FMI observa que os preços dos itens essenciais em relação aos demais bens continuam subindo por mais de um ano após o início de um episódio típico e permanecem persistentemente elevados. “Como resultado, as pessoas não enfrentam apenas um aumento temporário nos custos de alimentos e energia, mas uma deterioração duradoura da capacidade de adquirir itens essenciais em relação a outros produtos”, afirma. Além disso, a inflação permanece elevada muito depois do aumento inicial dos preços de alimentos e energia, segundo o FMI. As expectativas de inflação também sobem e permanecem acima dos níveis anteriores à crise por anos, sugerindo que esses episódios podem dificultar os esforços dos bancos centrais para controlar a inflação. O Fundo observa ainda o impacto desigual dessas crises, que recaem de forma desproporcional sobre as famílias mais pobres. “Como alimentos e energia representam uma parcela maior dos gastos das famílias de baixa renda, elas enfrentam uma inflação significativamente mais alta que as famílias mais ricas durante crises de custo de vida”, afirma o blog. Pessoas trocam mercadorias em um clube de escambo, em meio ao avanço de cozinhas comunitárias, clubes de troca e famílias que recorrem a empréstimos de curto prazo para comprar alimentos na Argentina REUTERS/Agustin Marcarian Os efeitos sobre a desigualdade e a pobreza são particularmente significativos nos países de baixa renda, onde os itens básicos representam uma parcela ainda maior dos gastos das famílias mais pobres. Para o FMI, isso mostra por que as crises de custo de vida são choques econômicos que podem, simultaneamente, prejudicar a estabilidade de preços, reduzir o padrão de vida e ampliar a desigualdade. Diante desse cenário, o FMI reconhece que medidas mais amplas podem ser necessárias em circunstâncias excepcionais, como crises agudas de segurança alimentar, riscos de instabilidade social ou dificuldades para implementar rapidamente programas de transferência. No entando, mesmo nesses casos, o apoio deve ser temporário, "com regras claras para seu encerramento", e "calibrado para o componente temporário do aumento de preços", e não para um novo patamar permanente. "Em um mundo mais sujeito a choques, fortalecer a proteção social antes que as crises ocorram pode melhorar a eficácia das futuras respostas de política econômica e ajudar a preservar o espaço fiscal necessário para enfrentar novos choques", finalizam os economistas.
Estímulo é melhor do que subsídio para mitigar alta de custo de vida, diz FMI