Troca de ideias. Rafael Galdo, editor de Rio do GLOBO, Guilherme Ramalho, presidente do MetrôRio, Cristina Albuquerque, especialista em mobilidade urbana, e Lauro Silvestre, subsecretário municipal Júlia Aguiar A necessidade de ampliar a concessão de subsídios e integrar os diferentes modais foi apontada como eixo central para a promoção de melhorias na mobilidade urbana no Rio. Esses desafios pautaram o debate entre autoridades e especialistas no seminário Caminhos do Rio, realizado na última segunda-feira, no auditório da Editora Globo. No encontro, os participantes discutiram soluções para tornar o transporte coletivo mais eficiente e sustentável, além de formas de superação dos entraves políticos e institucionais para a integração entre a capital e as outras cidades da Região Metropolitana — com impactos no dia a dia da população. Realizado pelos jornais O GLOBO e Extra, com patrocínio da Prefeitura do Rio, o evento foi mediado pelo jornalista Rafael Galdo, editor da Editoria Rio dos jornais. O primeiro painel, “Integração metropolitana: desafios e soluções para o transporte coletivo”, contou com a participação de Gabriel Tenenbaum, diretor de implementação para a América Latina da C40 (rede que reúne grandes cidades do mundo comprometidas com o combate à crise climática e a redução de emissões do efeito estufa); Maína Celidonio, assessora especial para transportes da Prefeitura do Rio; e Marcus Quintella, diretor da FGV Transportes. Ao abordar propostas e obstáculos, Tenenbaum destacou a relação entre o setor de transportes e a emissão de gases poluentes, além dos impactos crescentes de eventos climáticos extremos. — Hoje, o setor de transportes é o maior emissor de gases do efeito estufa nas cidades. No município do Rio, responde por mais de um terço das emissões e, além disso, é também o mais afetado por eventos climáticos extremos — afirmou. O especialista defendeu ainda a reorganização do sistema na Região Metropolitana: — Estamos perdendo passageiros do transporte coletivo para modos individuais. A integração entre os modais reduz a competição e melhora a qualidade do sistema — disse. A primeira mesa. O mediador Rafael Galdo, Gabriel Tenenbaum, diretor da C40, Maína Celidonio, assessora para Transportes do Rio, e Marcus Quintella, diretor da FGV Júlia Aguiar Maína Celidonio foi na mesma linha. Destacou que a ausência de planejamento integrado em nível metropolitano resulta em competição entre ônibus, metrô e os trens operados pela SuperVia. Ela também chamou atenção para a dificuldade de regulação de novos transportes, como os carros de aplicativo, e o crescimento do uso de motocicletas, impulsionado por viagens mais rápidas e baratas. — O ideal seria pensar o sistema de forma integrada, aproveitando o melhor de cada modal e facilitando o deslocamento da população. Esses serviços já fazem parte do sistema, mas ainda escapam da capacidade de coordenação do poder público — observou. — Existe espaço para todos os modais. Os aplicativos são importantes, especialmente para a última milha, mas precisam estar integrados ao planejamento. Princípios básicos Para Marcus Quintella, a incorporação do sistema passa por princípios básicos, como integração física e tarifária e ampliação da capilaridade. Ele destacou que a falta de cobertura adequada em regiões do estado favorece o crescimento de modais individuais, que acabam assumindo funções do transporte coletivo. O diretor da FGV também apontou limitações na infraestrutura de alta capacidade, como o metrô, e problemas operacionais no sistema ferroviário da SuperVia. Quintella defendeu ainda a adoção de subsídios como condição essencial. — Nenhum sistema de transporte urbano se sustenta apenas com a tarifa. O subsídio é indispensável — afirmou. — Integração física e tarifária é o básico, é cartilha de transporte. Sem capilaridade e abrangência, o sistema não funciona na metrópole. Na segunda mesa, que discutiu a “Sustentabilidade econômica do transporte”, o tema da integração voltou ao centro do debate. Participaram do painel Lauro Silvestre, subsecretário de Tecnologias em Transporte da Secretaria municipal de Transportes; Cristina Albuquerque, especialista em mobilidade urbana; e Guilherme Ramalho, presidente da concessionária MetrôRio. Cristina Albuquerque avaliou que o momento atual representa uma “janela de oportunidade”, com licitações previstas no município e no estado. Ela destacou que a integração entre modais pode reduzir custos totais e defendeu maior prioridade para ônibus nas vias como forma de aumentar a eficiência operacional: — Transporte coletivo não pode ser a última opção, precisa ser uma escolha. A tarifa do passageiro não sustenta o sistema. Sem subsídio, o transporte fica caro e perde usuários— afirmou. Uso de dados e eficiência Lauro Silvestre destacou que o uso de dados tem sido central para melhorar a eficiência do sistema de ônibus, permitindo redistribuição de horários e linhas conforme a demanda. Ele ressaltou que esse processo é resultado de um trabalho desenvolvido ao longo dos últimos cinco anos. Como próximo passo, a prefeitura pretende ampliar informações em tempo real aos usuários. — A ideia é que, nos apps, a pessoa consiga saber não só onde está o ônibus, mas também quando ele vai chegar ao ponto. A mobilidade precisa ser transparente e não pode ser um sofrimento para a população — disse Silvestre, acrescentando que a prefeitura criou linhas das quais “de fato a população precisa” com base em dados sobre origem e destino. O presidente do MetrôRio, Guilherme Ramalho, afirmou que o setor vive um momento de mudança na forma de financiamento, com maior aceitação dos subsídios — movimento que ganhou evidência após o governo estadual decidir manter a tarifa do metrô em R$ 7,90, mesmo depois do anúncio de reajuste para R$ 8,20. Ele defendeu maior integração tarifária e alertou para os riscos de um sistema sem financiamento adequado. — Sem preço adequado, o sistema perde usuários e entra em um ciclo de deterioração — afirmou Ramalho. — A integração tarifária é o que permite ao cidadão escolher o melhor trajeto, não o mais barato. * Estagiária sob a supervisão de Leila Youssef
Especialistas defendem integração