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Congresso do Peru elege José Balcázar como novo presidente interino antes de eleições gerais de abril

Congresso do Peru elege José Balcázar como novo presidente interino antes de eleições gerais de abril

Após uma longa votação, o Congresso do Peru elegeu José Maria Balcázar (Peru Livre), 83 anos, como novo presidente interino nesta quarta-feira, com 60 votos a favor, contra 46 da candidata María Del Carmen Alva (Ação Popular). A votação ocorreu um dia após o impeachment do presidente José Jerí, retirado do cargo apenas 130 dias após ser escolhido para substituir a também deposta Dina Boluarte — tornando-se o sétimo presidente a não completar um mandato desde 2016, sendo o segundo a ocupar a cadeira da Presidência pelo menor período neste século. A derrubada de Jerí aprofunda uma ampla crise que transformou o país sul-americano em um dos mais politicamente instáveis do mundo e acontece na reta final das eleições presidenciais e legislativas previstas para daqui a dois meses — no que pode ser um ponto de virada para restabelecer o equilíbrio entre os poderes.Entenda o caso: Congresso do Peru aprova processo de impeachment contra o presidente interino José JeríFator Trump: Eleições latino-americanas deste ano devem estar na mira de líder dos EUAAlém de Balcázar e Alva, também se apresentaram para a eleição para o novo mandato interino, que terá como principal missão o acompanhamento da disputa nas urnas e a transição de poder pacífico, Héctor Acuña (Honra e Democracia) e Edgar Reymundo (Bloco Democrático Popular).Foram necessárias duas votações para chegar a um nome, já que nenhum dos quatro candidatos obteve os votos necessários para ser eleito na primeira sessão. Na primeira votação, que teve início às 18h (20h em Brasília), Balcázar e Alva receberam 46 e 43 votos, respectivamente, o que levou a uma segunda rodada apenas entre os dois candidatos, conforme as regras do Congresso peruano. Na segunda votação, era necessária uma maioria simples dos votos para ser eleito — Balcázar obteve 60 e Alva, 46.Initial plugin textA destituição de Jerí — um político de 39 anos que tentou emular a linguagem nas redes sociais e as estratégias midiáticas de combate à criminalidade de outros líderes da região, como Nayib Bukele — pelo placar de 75 votos a 24 no Congresso foi apontada por analistas como um lembrete da força que o Poder Legislativo peruano adquiriu na última década.— Há vários anos vivemos sob um sistema de parlamentarismo. O conceito de impeachment tornou-se difuso, evoluindo para uma espécie de voto de confiança parlamentar — disse a cientista política Paula Távara, em entrevista ao jornal espanhol El País, explicando que o processo se acentuou desde 2016, quando Pedro Pablo Kuczynski foi eleito presidente, mas herdou um Congresso oposicionista, com maioria do partido Ação Popular, da líder de direita Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, derrotada na corrida presidencial.A analista aponta que foi a partir desse período que o Congresso unicameral do Peru decidiu exceder os limites da oposição no Legislativo, ampliando os embates e as tentativas de imposição sobre a agenda do Executivo. Essa expansão se tornou a regra geral da dinâmica política peruana, começando pela deposição de Kuczynski — em meio a denúncias de relações ilegais com a empresa brasileira Odebrecht —, em uma espiral que tem como capítulo mais recente a queda de Jerí.O sucessor de Kuczynski foi Martín Vizcarra, que ocupava a vice-Presidência. Ainda sob pressão do fujimorismo, ele sofreu um impeachment em 2020, acusado de "incapacidade moral permanente". Recentemente, Vizcarra foi condenado pela Justiça peruana a 14 anos por corrupção, em um processo que investigou fatos da época em que era governador. Após Vizcarra, Manoel Merino foi escolhido em um processo indireto, mas permaneceu apenas cinco dias no cargo, renunciando após protestos violentos. Seu sucessor, Francisco Sagasti, foi o único a chegar ao fim do mandato, passando oito meses no cargo.Assim como os antecessores, o presidente eleito em 2020, Pedro Castillo, e Dina Boluarte, sua vice até a deposição, foram retirados do cargo sob alegações envolvendo a incapacidade moral. Castillo tentou fechar o Congresso, em uma manobra constitucional arriscada, enquanto Boluarte sofria pressões de protestos contra a insegurança. Castillo foi condenado a 11 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado no fim do ano passado, mas foi absolvido de acusações envolvendo abuso de poder e perturbação da ordem pública.Impacto eleitoral e possível estabilizaçãoO histórico de deposições mostra que, em muitos casos, suspeitas de corrupção ou argumentos vagos envolvendo a idoneidade moral levaram a queda dos presidentes — no caso de Jerí, o processo político foi embasado em denúncia de "má conduta funcional e falta de aptidão", após o Ministério Público abrir investigações por suas relações com um empresário chinês e a contratação de nove mulheres para o governo. Ele não foi julgado por nenhum dos casos e as investigações ainda estão em fase inicial. A falta de contraditório não impediu a queda."Este episódio não é um caso isolado; pelo contrário, reflete uma tendência estrutural impulsionada pelos poderes significativos conferidos ao Legislativo, pela falta de profissionalização entre muitos políticos e pelos níveis relativamente baixos de engajamento social em relação à responsabilização política", escreveu o analista Eduardo Ruiz, da consultoria global Control Risks, em uma análise para o Americas Quartely.Entenda: Ministério Público do Peru investiga presidente José Jerí por tráfico de influênciaApesar da instabilidade política, o país sul-americano vem registrando crescimento econômico nos últimos anos. A leitura de analistas é de que a estabilidade no Banco Central do país transmite segurança a investidores, incluindo de EUA e China. Para o campo político, a expectativa é de que as mudanças previamente programadas a partir de julho, quando assumirá o novo presidente, ajudem a estabilizar o cenário. Neste ano, o país elegerá, além de deputados, senadores, retomando a estrutura bicameral que havia sido extinta pelo ditador Fujimori."[O] novo Congresso bicameral deve restringir o processo de impeachment no próximo mandato, já que será mais difícil para duas Casas legislativas chegarem a um consenso tão rapidamente quanto o Congresso unicameral consegue fazer atualmente", escreveu Esteban Tamayo, economista para os Andes, Caribe e América Central no Citigroup, também em análise para a Americas Quartely.Com AFP, Bloomberg e El Comercio.