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A nova medicina da longevidade começa antes da doença

A nova medicina da longevidade começa antes da doença

Por muito tempo, falar em longevidade significava falar em expectativa de vida. Quantos anos uma pessoa poderia viver? A pergunta continua relevante, mas a medicina contemporânea começa a se ocupar de outra questão, talvez mais importante: como serão vividos esses anos? O conceito de healthspan — o período da vida vivido com saúde, independência e capacidade funcional — ganhou espaço entre pesquisadores dedicados ao envelhecimento. O foco deixa de ser apenas prolongar a vida e passa a incluir aquilo que permite aproveitá-la: saúde cardiovascular e metabólica, cognição, mobilidade, força e autonomia. "Para mim, longevidade não é simplesmente chegar aos 90 ou aos 100 anos. É chegar lá tendo saúde para continuar fazendo aquilo que dá sentido à sua vida", afirma o médico nutrólogo Diogo Dias. Essa visão acompanha uma mudança importante na ciência. Pesquisadores como Nir Barzilai, Valter Longo e Luigi Ferrucci vêm estudando os mecanismos do envelhecimento e fatores relacionados à preservação da saúde ao longo da vida. Na prática clínica, o médico americano Peter Attia popularizou o conceito de uma medicina mais antecipatória, voltada à redução de riscos antes que doenças crônicas se manifestem. "Grande parte da medicina foi construída para agir quando alguma coisa já deu errado. Na longevidade, precisamos olhar muitos anos à frente. O paciente de 45 ou 50 anos que está bem hoje é justamente quem tem uma grande oportunidade de construir como deseja chegar aos 70 ou 80", diz Dias. O músculo como reserva para o futuro Nesse cenário, composição corporal, massa muscular, força, capacidade cardiorrespiratória, sono e saúde metabólica passam a fazer parte de uma avaliação mais ampla. O músculo, particularmente, deixa de ser visto apenas pela perspectiva estética. Preservar massa e função muscular ao longo dos anos significa também preservar a capacidade de realizar tarefas cotidianas e manter independência. "Depois dos 40, manter músculo, força e capacidade física não deveria ser tratado apenas como uma preocupação estética. É uma reserva para o futuro, que ajuda a sustentar mobilidade, independência e qualidade de vida nas décadas seguintes", afirma Dias. Ao mesmo tempo, a expansão de tecnologias, biomarcadores e exames traz uma quantidade inédita de informações sobre o organismo. Para Dias, o desafio é transformar esses dados em decisões que façam sentido para cada pessoa. "Tecnologia é importante, mas precisa responder a uma pergunta clínica. O que faz diferença é reunir as informações certas, entender aquela pessoa e transformar isso em uma estratégia que ela consiga sustentar ao longo dos anos." Uma clínica construída a partir dessa visão Foi em torno desse conceito que Dias estruturou a nova Clínica DIAS, em Curitiba. O modelo reúne avaliação médica, composição corporal, metabolismo, nutrição, saúde hormonal, força muscular e acompanhamento longitudinal. O cuidado foi organizado em quatro etapas: Diagnóstico, Intervenção, Ativação e Sustentação. A proposta é compreender o paciente de forma ampla, identificar riscos e necessidades, intervir de maneira individualizada e acompanhar sua evolução ao longo do tempo. "Não existe um tratamento isolado que produza longevidade. Existe um conjunto de decisões tomadas repetidamente durante muitos anos. Nosso papel como médicos é identificar onde estão os riscos, corrigir o que precisa ser corrigido e ajudar o paciente a construir reservas para o futuro", afirma. A nova clínica representa uma evolução dessa forma de exercer a medicina. "Eu não queria criar apenas um lugar para tratar doenças ou melhorar exames. Queria construir uma clínica para ajudar as pessoas a se sentirem melhor, viverem melhor e envelhecerem melhor. No fim, essa é a maneira mais simples que encontrei de definir longevidade." Talvez esteja justamente aí a principal transformação desse campo. A medicina passou grande parte de sua história tentando acrescentar anos à vida. O desafio das próximas décadas será fazer com que esses anos adicionais continuem pertencendo, de fato, a quem os vive.