<_cdata><p> Integração com instituições de outros países é indispensável, mas desenvolvimento científico exige compromisso com o longo prazo</p> <p>O presidente e candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou recentemente que pretende recriar o programa Ciência sem Fronteiras em um eventual próximo mandato, desta vez com ênfase em áreas ditas estratégicas, como inteligência artificial, matemática e engenharia. A intenção parte do entendimento inquestionável de que um país que deseja produzir ciência competitiva, formar profissionais altamente qualificados e participar do desenvolvimento das tecnologias que moldarão o futuro não pode permanecer isolado, pois a ciência é internacional. Mas, infelizmente, para internacionalizar a ciência brasileira não é suficiente mandar estudantes para o exterior. É necessário planejar o porquê de cada bolsista viajar, o que irá aprender, como esse conhecimento será incorporado ao seu projeto e de que maneira retornará ao sistema científico nacional. Sem isso, financia-se uma experiência internacional individual (que pode ser excelente para quem a recebe), mas não avanços para a ciência nacional.</p> <p>O Ciência sem Fronteiras original, criado em 2011, proporcionou oportunidades a dezenas de milhares de estudantes, a grande maioria (mais de 80%) de graduação, fase em que um indivíduo geralmente ainda não está preparado para realizar atividades científicas de fronteira. Envolveu investimentos muito significativos: cerca de R$ 15 bilhões em total, uma cifra mais de sete vezes maior do que o orçamento atual do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Esse aspecto precisa ser considerado com seriedade em qualquer tentativa de retomada do programa. O problema não foi investir muito em internacionalização, mas sim fazê-lo sem proteger as estruturas que sustentam a ciência brasileira e garantir que houvesse retorno desse investimento. Não faz sentido enviar temporariamente estudantes para universidades estrangeiras enquanto faltam bolsas, reagentes, equipamentos, financiamento e empregos para que possam pesquisar no Brasil. </p> <p>Nesse aspecto, a Bepe (Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior), da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), sempre ofereceu um modelo conceitualmente melhor. A Bepe não é uma bolsa de mobilidade independente, mas sim vinculada a uma bolsa e projeto de pesquisa em andamento no país. A proposta é analisada por pares e precisa demonstrar que o estágio junto a um grupo de liderança internacional produzirá uma contribuição para a pesquisa desenvolvida aqui. Após o estágio, o bolsista retorna e transfere os conhecimentos adquiridos. Ou seja, o pesquisador não vai ao exterior apenas para ter uma experiência internacional. Vai fazer ciência, estabelecendo uma colaboração capaz de continuar após seu retorno.</p> <p>Justamente por reconhecer o valor desse modelo, me preocupa a recente mudança nas normas Bepe, que foram anunciadas sem aviso prévio em 26 de agosto e entraram em vigor menos de uma semana depois, em 1° de setembro. As novas regras reduzem de doze para seis meses o período de estágio internacional concedido às modalidades de doutorado, doutoramento direto e pós-doutorado. Embora exista a possibilidade de prorrogação, ela não é garantida; pelo contrário, é descrita como “excepcional”. A mudança traz sérias consequências científicas, pois a ciência não é linear, e o que se consegue realizar em seis meses é muito menos do que a metade do que seria possível em um ano.</p> <p>Não faz sentido enviar temporariamente estudantes para universidades estrangeiras enquanto faltam bolsas, reagentes, equipamentos, financiamento e empregos para que possam pesquisar no Brasil</p> <p>O início de um estágio internacional envolve cursos obrigatórios, autorizações de segurança e ética, treinamento em equipamentos, familiarização com protocolos e, frequentemente, espera e preparo de reagentes, amostras, animais, linhagens celulares e outros materiais biológicos. É usual e esperado que os primeiros um a três meses transcorram em treinamento e preparo, antes que um primeiro experimento seja iniciado. Consequentemente, a limitação temporal pode gerar o efeito oposto ao desejado: em vez de estimular projetos ousados e complementares ao trabalho realizado no Brasil, pode favorecer propostas conservadoras, de fácil execução, com menor ganho de conhecimento e pouca integração com o projeto de origem. No meu ver, seria preferível – e muito melhor investimento financeiro – conceder menos bolsas, com seleção rigorosa que premia a ousadia e ganho científico, do que encurtar indiscriminadamente esses estágios.</p> <p>As novas regras da Bepe também excluem do programa estudantes mais no início de sua formação, de iniciação científica (graduação) e de mestrado, embora uma nota da Fapesp posterior à implementação sugira que haverão chamadas para esses grupos. Sei que serei controversa aqui ao dizer que não sou desfavorável a esta exclusão, pois acredito que os significativos recursos investidos em internacionalização trazem mais benefícios quando aplicados a pesquisadores mais experientes, e sabemos que recursos são limitados e prioridades precisam ser estabelecidas. Porém, não podemos aceitar que uma mudança tão grande de oportunidades seja anunciada com tão pouco aviso prévio, levando orientadores e jovens cientistas a ter que readaptar seus planos da noite para o dia, muitas vezes tendo que se explicar (ou tentar se explicar, pois essas coisas que acontecem no Brasil são muito difíceis de justificar) para potenciais parceiros no exterior já contatados, com planos de colaboração já estabelecidos.</p> <p>De modo geral, o Brasil carece da compreensão de que progresso científico não funciona à base de grandes programas bombásticos lançados com entusiasmo e depois reformulados ou abandonados abruptamente. Internacionalizar requer constância, previsibilidade e investimentos bem pensados, mantidos por tempo suficiente para produzir resultados, e constantemente avaliados em seus impactos. Internacionalizar a ciência é indispensável, mas precisa ser feito sem oba-oba, com ambição científica, qualidade, seletividade e compromisso de longo prazo.</p>
A internacionalização da ciência requer previsibilidade